

Leonardo
Perego Jr
O PROÁLCOOL REJUVENESCIDO: 1976-2006
Em
1976, recém-formado, me preparava para solicitar uma bolsa de estudos
na pós-graduação para estudar processos fermentativos.
Por uma dessas agradáveis surpresas da vida, o professor Walter Borzani,
meu orientador, conseguiu "vender" nosso projeto de pesquisa para
o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo
(IPT). Assim, passamos a dispor de apoio muito maior, sem contar os salários,
muito superiores às bolsas. Bons tempos!
Borzani, orientador e mentor do nosso grupo de pesquisa, há tempos
utilizava a fermentação alcoólica como modelo para estudos
tecnológicos envolvendo microorganismos (hoje isso se chama Biotecnologia)
em razão de sua simplicidade e do baixo custo operacional, assim como
a mosca Drosophila melanogaster e a bactéria Escherichia coli são
utilizadas em outras áreas de pesquisa.
Nossa associação com o IPT foi a busca de simbiose, visando
ao desenvolvimento mais rápido de inovações tecnológicas
na produção de álcool, mormente pelos processos contínuos
de fermentação. Entre os objetivos, procurava-se desenvolver
tecnologias e formar profissionais para atender à demanda gerada pelo
Proálcool, que dava seus primeiros passos.
Nosso grupo participou de um seminário em Piracicaba (SP), em meados
de 1976, para tratar da produção de álcool e biogás.
Participaram pesquisadores, produtores de cana-de-açúcar, usineiros,
membros do governo estadual e outros.
Resumindo a ópera, ouvimos que o Brasil passaria dos 0,7-1,0 bilhão
de litros de álcool ao ano, para 3,0 ou 4,0 ou até 5,0 bilhões
anuais em curto período. Seriam construídas 90 a 100 novas unidades
de produção (destilarias autônomas e anexas a usinas de
açúcar). O Estado de São Paulo pleitearia a instalação
da maioria absoluta dessas unidades, e as montadoras fabricariam carros com
motores exclusivos a álcool (até então apenas motores
a gasolina eram convertidos a álcool). Foram identificadas inúmeras
matérias-primas alternativas (mandioca, banana, cará, celulose,
mesocarpo de babaçu ou qualquer vegetal que contivesse açúcares).
Os usineiros e os canavieiros presentes não "deram bola"
para essas novas fontes. Sabiam da grande potencialidade da cana. Aliás,
não acredito no potencial de nenhuma matéria-prima que não
gere o próprio combustível para seu processamento. No caso da
cana, o bagaço.
Na
parte final do seminário, discutiu-se a produção de biogás.
O grupo do IPT responsável pelos estudos de biodigestão também
estava presente. Este, sim, era um combustível do futuro: substituiria
os gases do petróleo, ajudaria a despoluir o meio ambiente, qualquer
resíduo orgânico serviria como matéria-prima, a conversão
de motores era muito mais simples que no caso do álcool, etc. Saímos
de Piracicaba impressionados e preocupados: "Seria possível tal
aumento de produção?"; "E o 'mar de cana' necessário?";
"E as enormes quantidades de vinhaça poluidora resultante, como
a biodigestão daria conta dela?".
Em nossas pesquisas, "metemos a mão na massa", e não
só nós. Durante mais de quinze anos, só obtinha recursos
oficiais quem se dispunha a estudar a produção de álcool
e biogás. O café e outras culturas perderam muitos pesquisadores
para a cana.
O resultado disso tudo é conhecido de todos. O Brasil desenvolveu o
maior e mais bem-sucedido programa de produção de combustíveis
líquidos renováveis: a produção de álcool
chegou a 14 bilhões de litros anuais; no final dos anos 1980, a maioria
esmagadora de carros produzidos era movida a álcool; as produtividades
industrial e agrícola cresceram vertiginosamente; competência
científica e técnica fundamentais foram adquiridas; o "mar
de cana" nunca existiu, e a vinhaça virou um fertilizante disputado.
De outro lado, porém, além da cana, nenhuma outra matéria-prima
se consolidou. O biogás nunca se tornou um combustível significativo,
mas a biodigestão de resíduos orgânicos mostrou-se importante
na proteção ambiental, mesmo considerando a vinhaça,
pois devemos lembrar que, em Pradópolis (SP), uma importante usina
instalou um biodigestor termofílico para obter biogás a partir
de vinhaça e então utilizá-lo na secagem de levedura
residual para uso em ração animal. Foram despendidos vultosos
recursos financeiros oficiais para a instalação das novas unidades,
nem sempre com a transparência desejável. Alguns fracassos, como
o de Curvelo (MG) e desvios foram inevitáveis.
Mas o pior de tudo aconteceu em meados da década de 1990, quando vários
atores envolvidos no processo cometeram erros que resultaram no desabastecimento
do álcool e na perda da confiança do consumidor. O Proálcool
ficou desacreditado, muito embora a produção do combustível
se mantivesse para atender à frota existente, que diminuía a
cada ano, e para ser adicionado à gasolina.
Pois bem, passados trinta anos daquela reunião em Piracicaba, eu, que
deixei de ser pesquisador e sou canavieiro, resolvi participar de uma reunião
no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo
(IEA-USP). Tema: Produção de Álcool e Bio...diesel! Presentes
pesquisadores, consultores, usineiros, canavieiros, Anfavea e nenhum membro
do governo. Vá-lá, um ex-membro, o ex-ministro da agricultura
Sr. Roberto Rodrigues, entre outras coisas, importante canavieiro.
No fim dos trabalhos, duas importantes constatações: nunca me
senti tão jovem de novo; a produção de álcool
carburante hoje independe de subsídios governamentais. Isso só
ocorre no Brasil! Pelo menos enquanto o barril de petróleo custar mais
de 40 doláres.
Hoje, o biodiesel é uma coqueluche, pode ser produzido a partir de
soja, milho, dendê, mamona ("a mandioca de 1976"), resíduos
de frigoríficos, pinhão-manso...ou qualquer coisa que contenha
gordura vegetal ou animal (onde mesmo já ouvi algo assim?).
Se a produção desse combustível vingar, será obtida
a partir das oleaginosas, pois aí é que está nossa real
capacidade de produção. Dois problemas devem ser encarados de
imediato: o aumento da área plantada e a oscilação dessas
commodities. O primeiro é relativamente fácil de resolver, o
segundo, só com bola de cristal.
Quanto ao álcool, o advento dos carros flex fez desaparecer a desconfiança
do consumidor, e sua produção voltou a crescer, devendo aumentar
muito mais, independentemente dos recordes de exportação de
açúcar. Boa indicação de que este é um
mercado mais consolidado e experiente. Inegavelmente, o mundo precisará,
ao menos nas próximas décadas, de um combustível líquido
alternativo, seja para substituição dos derivados de petróleo
ou para amenizar a poluição causada por estes.
Atualmente produzindo cerca de 16 bilhões de litros anuais de álcool,
o Brasil pretende atingir a marca de 100 bilhões em vinte anos, visando
principalmente à demanda externa. E o "mar de cana", agora
se instala? Não é bem assim. Hoje, há 6 milhões
de hectares de cana no País, metade dessa área produz açúcar
e a outra metade produz álcool, mas lembrando que é apenas uma
aproximação, já que é possível uma usina
produzir apenas álcool, mas se produzir apenas açúcar,
vai precisar de criatividade para se livrar do melaço residual. Desse
modo, seriam necessários cerca de 20 milhões de hectares adicionais
de cana para se atingir a meta almejada. Essa área deve se destinar
apenas à produção de álcool, porque o mercado
de açúcar certamente não crescerá como o de álcool.
Essa área não é tão grande se comparada aos 20
milhões de hectares de soja hoje existentes, mostrando-se irrisória
quando comparada aos 220 milhões de hectares ocupados por pastagens:
2,2 milhões de quilômetros quadrados.
Nosso rebanho bovino, que, de longe, é o mais representativo a ocupar
pastos, gira em torno de 165 milhões de cabeças, o que resulta
numa taxa de ocupação média de 0,75 cabeça por
hectare. Com minha experiência como pecuarista, posso afirmar que essa
taxa de ocupação seria facilmente duplicada adotando-se uma
fração da tecnologia já disponível, o que teoricamente
liberaria 100 milhões de hectares para a agricultura. Claro que existem
áreas em que o manejo de 1,5 cabeça por hectare é difícil,
mas a simples margem de segurança dos números dá a certeza
de que isso pode ser feito.
É importante ressaltar que em nenhum momento mencionei desmatamentos,
mas, sim, o melhor aproveitamento das áreas atualmente destinadas à
agropecuária. Esses 100 milhões de hectares é o que realmente
traz empresários ao Brasil. Tecnologias agroindustriais podem ser desenvolvidas
em muitos países, mas só o Brasil tem 1 milhão de quilômetros
quadrados de terras aptas, com clima adequado e servidas por razoável
infra-estrutura.
Caberá a nós aproveitar essa rara oportunidade de criar um mercado
que certamente gerará muita riqueza. Espero isso da sociedade em geral
e principalmente daqueles envolvidos de alguma maneira com o agronegócio.
Deveremos enfrentar fortes resistências internas (como aconteceu há
trinta anos) e principalmente externas, buscando sempre superá-las.
Do governo, não devemos esperar subsídios, já aprendemos
a produzir sem ele. Essa é a grande diferença em relação
a nossos congêneres do Primeiro Mundo. Devemos, sim, esperar que o governo
cumpra a sua parte nas áreas regulatória, normativa, judiciária
e principalmente internacional.